A influência do design biofílico nos edifícios doentes

Por: Silvia Bigoni

Introdução: o impacto do ambiente construído no bem-estar

A arquitetura é tanto ciência quanto arte, integrando múltiplos parâmetros para responder às necessidades humanas dentro do ambiente construído. Cabe ao arquiteto interpretar esses requisitos e transformá-los em espaços funcionais, confortáveis e sensoriais, considerando forma, função, iluminação, ventilação, temperatura, cor e sonoridade. Cada elemento contribui para um ambiente que impacta o inconsciente e molda a experiência do usuário.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que doenças relacionadas ao estresse, como distúrbios mentais e cardiovasculares, serão as maiores causas de adoecimento até 2025. Como cerca de 90% da vida humana ocorre em ambientes internos, a qualidade desses espaços é decisiva para a saúde, o bem-estar e a produtividade.

Desde os anos 1970, surgem relatos de que usuários de edifícios corporativos e institucionais apresentavam sintomas de desconforto físico e mental após longos períodos nesses ambientes. A OMS classificou essa condição como Síndrome do Edifício Doente (Sick Building Syndrome – SBS), reconhecendo-a como problema de saúde pública.

 

Síndrome do Edifício Doente (SBS): causas e sintomas

A Síndrome do Edifício Doente (SBS) é caracterizada por sintomas agudos — como dores de cabeça, irritação nos olhos, garganta seca, tosse, tontura e fadiga — que surgem ou se intensificam quando o indivíduo permanece em determinados edifícios e desaparecem ao sair deles. A OMS identificou dois tipos principais:

– Edifícios temporariamente doentes: geralmente novos ou reformados, onde os sintomas tendem a diminuir com o tempo.
– Edifícios permanentemente doentes: apresentam problemas persistentes mesmo após intervenções corretivas.

As causas estão associadas à má qualidade do ar interno, iluminação inadequada, ruído excessivo e uso de materiais tóxicos. Estudos mostram que os níveis de poluentes internos podem ser até três vezes maiores que os externos, afetando diretamente a saúde e a produtividade.

            Representação de edifícios corporativos. Fonte: canva.com (acesso 20/12/2021).

 

Poluição do ar interno: fontes e efeitos

A poluição do ar interno é um dos principais fatores que contribuem para a SBS. Ela resulta da exposição contínua a contaminantes químicos, mesmo em baixos níveis, que se acumulam nos espaços.

Fontes internas incluem:
– Adesivos, carpetes e estofados;
– Produtos manufaturados de madeira;
– Agentes de limpeza;
– Materiais sintéticos, como PVC.

Esses materiais liberam compostos orgânicos voláteis (VOCs), como o formaldeído, responsáveis por alergias, irritações respiratórias e fadiga. Além disso, o uso de solventes em mobiliários e equipamentos de escritório intensifica o problema.

Fontes externas também influenciam. O ar externo contaminado pode penetrar nos edifícios por frestas e janelas mal posicionadas, trazendo poluentes de escapamentos, odores de banheiros e cozinhas. Além disso, bactérias e fungos proliferam em dutos e sistemas de ventilação mal higienizados.

 

Principais fontes de poluentes num edifício de escritórios. Fonte: Adaptado por Silvia Bigoni – A Green Vitruvius, (2001).

 

Estratégias para melhorar a qualidade do ar

Para mitigar esses problemas, algumas medidas são fundamentais:

– Evitar aberturas que permitam infiltração de ar externo contaminado;
– Posicionar corretamente janelas e entradas de ar nos sistemas de ventilação;
– Utilizar janelas seladas e ventilação mecânica controlada quando o ar externo for inadequado;
– Implementar manutenção rigorosa, com limpeza periódica de filtros e inspeções.

Necessidade de limpeza periódica de filtros. Fonte: http://biocientific.com.br/site/servicos/qualidade-do-ar-interior/(acesso18/12/2021)

Essas ações estão alinhadas aos padrões de Qualidade do Ar Interior (IAQ) e contribuem para a saúde, o conforto e o desempenho dos ocupantes. A Lei nº 13.589/2018 estabelece a obrigatoriedade do Plano de Manutenção, Operação e Controle (PMOC) em edifícios públicos e coletivos com climatização artificial, garantindo condições adequadas de higiene e segurança.

 

Design biofílico: reconectando pessoas e natureza

O conceito de biofilia, originado do grego “bios” (vida) e “philia” (afeição), significa “amor pela vida”. Segundo Edward Wilson, os seres humanos têm uma afinidade inata com a natureza. O design biofílico busca restabelecer essa conexão por meio de elementos naturais e simbólicos, promovendo saúde, bem-estar e produtividade.

De acordo com Stephen Kellert (2018), os princípios do design biofílico incluem a integração de processos naturais, bem como a inserção de estímulos sensoriais autênticos e a criação de vínculos emocionais com os espaços.
Nesse sentido, tais princípios buscam aproximar o ser humano da natureza, favorecendo interações mais harmônicas entre o ambiente construído e o comportamento humano.
Além disso, ambientes que incorporam vegetação, luz natural, água, materiais naturais e vistas para o exterior tendem a reduzir o estresse, ao mesmo tempo em que melhoram o humor e aumentam a concentração.
Por conseguinte, esses espaços se tornam mais acolhedores e equilibrados, oferecendo condições que favorecem a saúde física e mental.
Dessa forma, o design biofílico atua como uma estratégia eficaz para promover bem-estar e desempenho cognitivo, a saber:

  • design biofílico foca em adaptações humanas à natureza que contribuem com a saúde física e mental, desempenho e bem-estar;
  • design biofílico cria ambientes interrelacionados e integrados, onde o todo ecológico é mais importante do que suas partes;
  • design biofílico incentiva o engajamento e a imersão em características e processos naturais;
  • design biofílico é fortalecido pela satisfação de uma ampla gama de valores que as pessoas inerentemente possuem sobre o mundo natural;
  • design biofílico promove sentimentos de adesão a uma comunidade que inclui tanto as pessoas quanto o ambiente não humano;
  • design biofílico bem-sucedido resulta em apegos emocionais a estruturas, paisagens e lugares;
  • o design biofílico ocorre em uma multiplicidade de configurações e escalas, incluindo espaços e paisagens interiores, exteriores e transitórios;
  • projeto biofílico busca melhorar a relação humana com sistemas naturais e evitar impactos ambientais adversos;
  • design biofílico eficaz envolve uma experiência “autêntica” da natureza, ao invés de uma artificial ou inventada.

Benefícios comprovados:
– Melhora da função cognitiva e da atenção;
– Redução da pressão arterial e dos níveis de cortisol;
– Aumento do bem-estar emocional e físico.

Com o uso de técnicas comprovadas para a criação de ambientes internos e externos que nos conectam com os nossos instintos naturais, é possível desenvolver espaços que auxiliem as pessoas a se sentirem e a trabalharem melhor. Os espaços precisam proteger, acolher, relaxar, emocionar, inspirar, envolver, abrigar e gerar bem-estar nos usuários.

Alguns elementos de design biofílico e seus atributos correspondentes são apresentados abaixo.

Características ambientais Formas e formas naturais Padrões e processos naturais
Cor Motivos botânicos Variabilidade sensorial
Água Suportes de árvore e colunar Riqueza de informações
Ar Animal (principalmente vertebrado) motivos Mudança de temperatura
Luz solar Conchas e espirais Concentração de formas
Plantas Arcos, abóbadas, cúpulas Espaços de transição
Animais Formas resistentes às linhas retas Integração de partes aos contextos
Materiais naturais Ângulos retos Preferência temática
Vistas e vistas Ângulos irregulares Fractais (figuras geométricas)
Esverdeamento da fachada Simulação de recursos naturais Fractais (figuras de construção)
Geologia e paisagem Biomorfia Não euclidiano (encontrado na natureza)
Habitats e ecossistemas Geomorfologia Índices organizados hierarquicamente e escalas
Biomimética
Luz e espaço Relacionamentos com base no local Natureza humana evoluída
Luz natural Conexão geográfica com o lugar Prospecção e refúgio
Luz filtrada e difusa Conexão histórica ao local Perigo de procurar
Luz e sombra Conexão ecológica ao local Ocultamento de atração
Luz refletida Materiais indígenas Originação e sedução
Piscinas claras Orientação e desorientação Coleção e admiração
Luz como forma e forma Integração da cultura e lugar Espírito local
Espaço Espírito do lugar Evitar a falta de lugar
Variabilidade espacial Evitando a falta de lugar
Harmonia espacial
Espaços dentro e fora
Elementos de design biofílico e seus atributos. Fonte: Living Building Challenges 3.1 – A Visionary path to a regenerative future, 2018.

 

Projetos bem planejados utilizam árvores, jardins internos, paredes verdes, fontes d’água e materiais como madeira e pedra, criando experiências multissensoriais e restauradoras. Árvores e arbustos, como também o uso de paredes vivas em fachadas dos edifícios, ajudam a absorver o CO2 e o pó do entorno. A figura abaixo apresenta o uso de vegetação no entorno de um edifício corporativo.

Árvores e arbustos no entorno do edifício corporativo.Fonte: https://www.archdaily.com.br/br/766921/paisagismo-no-campus-corporativo-coyoacan-dlc-arquitectos-plus-colonnier-y-asociados (acesso 18/12/2021).

 

Exemplos de aplicação do design biofílico

Um exemplo marcante é o “Parque de los Pies Descalzos”, em Medellín (Colômbia), onde visitantes caminham descalços em áreas com areia, água e vegetação, reconectando-se com a natureza e reduzindo o estresse.

No Brasil, o escritório “IT’S Informov”, em São Paulo, aplica vegetação suspensa em seus ambientes corporativos. Em Pequim, uma parede verde em espaço empresarial utiliza iluminação artificial para garantir a fotossíntese, mesmo sem luz natural.

Outro caso emblemático é o “WWF Living Planet Centre”, no Reino Unido, projetado para refletir as credenciais ambientais da instituição. Ocupantes relatam sensação de pertencimento e tranquilidade, comprovando o impacto positivo do design biofílico na saúde e produtividade.

 

Conclusão: edifícios mais saudáveis com biofilia

  •  Integração entre arquitetura e bem-estar

A arquitetura contemporânea deve ir além da estética. É preciso criar ambientes que promovam saúde, conforto e produtividade. Ao integrar a biofilia desde a concepção do projeto, é possível transformar o microclima, melhorar a qualidade do ar e favorecer a experiência sensorial dos usuários.

  • Benefícios mensuráveis e impactos positivos

Ambientes biofílicos proporcionam aumento de produtividade, redução do estresse, melhora do humor e fortalecimento dos vínculos emocionais com o espaço.

  • Sustentabilidade e eficiência energética

Elementos naturais aliados a construções bem planejadas tornam o edifício mais eficiente, com menor consumo energético e menor impacto ambiental. Isso gera um ciclo positivo de conforto ambiental e responsabilidade ecológica.

  • A busca pelo equilíbrio

Mais do que uma tendência, o design biofílico representa uma filosofia de equilíbrio entre natureza e tecnologia, forma e função, estética e bem-estar.

Fonte e Referência Acadêmica
Este artigo é fruto do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) apresentado por Silvia Bigoni como parte dos requisitos para obtenção do título de especialista em Design de Interiores, Ambientação e Produção do Espaço – IPOG.

 

Referências

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